“Não é só sangue - uma conversa sobre o ciclo menstrual”, Patrícia Lemos
Este livro veio ter comigo no momento em que decidi parar de tomar a pílula contraceptiva ao fim de quinze anos. Com os sucessivos confinamentos e com a obrigatoriedade de ficar em casa durante praticamente um ano, decidi usar esse tempo para conhecer melhor o meu corpo.
A primeira vez que menstruei tinha 15 anos. Fui ao ginecologista com a minha mãe para uma primeira consulta e saí de lá com uma receita de uma pílula. Comprei-a na farmácia a caminho de casa e, entretanto, passaram outros 15 anos. Tenho, neste momento, 30 anos e tirando alguns meses em que estava a fazer transição entre pílulas, posso dizer que passei metade da minha vida a tomá-la.
Até ler este livro (ou seja, até ao fim de semana passado) dizia que a minha menstruação era muito certinha. Vinha todos os meses, durava o mesmo número de dias, desaparecia no dia em que eu tinha marcado na agenda e pronto. Hoje, depois de ler este livro, arrisco-me a dizer que, em 15 anos, contam-se pelos dedos da mão as vezes em que, de facto, menstruei.
A única coisa que lamento, foi este livro não me ter chegado às mãos mais cedo. E a razão não é porque diaboliza a pílula e, se o tivesse lido antes, teria feito outra escolha. Nada disso. A razão é que só aos trinta anos começo a perceber o que é o meu corpo.
Depois de ler este livro tive vontade de ligar à mãe. Sempre achei que a nossa relação era muito aberta quanto a estes assuntos. Sempre falámos sobre o corpo uma da outra, despimo-nos à frente uma da outra, acompanhamo-nos mutuamente a consultas, ficamos a dormir no hospital para acompanhar o momento do recobro, fazemos curativos mútuos, damos injecções à outra quando não temos coragem de dar a nós mesmas, esprememos os pontos negros que não conseguimos ver no nosso próprio corpo.
A única razão que pode ter feito com que a minha mãe não me tivesse ensinado o ciclo menstrual como o aprendi com este livro, é porque provavelmente ela também não o conhece.
Então, fiquei com vontade de ligar à minha avó, e planear uma tarde para o lermos as três em conjunto. Enquanto pensava nisto, lembrei-me de várias amigas a quem queria oferecer o livro. E, no meio destas lembranças, vinham-me à ideia amigos que gostava que o lessem, e amigos que sabia que o iam querer ler.
Deixo a sugestão de leitura de “Não é só sangue” como um dos livros que temos de ler antes de morrer, mas que, espero eu, possa chegar às nossas vidas ainda na adolescência. Pode ser lido na intimidade ou em público, debaixo dos lençóis com uma lanterna, ou em família, no sofá da sala. Como melhor vos servir e à vossa dinâmica pessoal.
Para além da grande aprendizagem que o livro nos dá sobre o nosso corpo, a nossa saúde, o nosso funcionamento e os sinais a que devemos prestar atenção, não posso deixar de destacar a enorme e feliz surpresa que a leitura me deu.
A autora, Patrícia Lemos, consegue passar por vários assuntos sem nunca fazer um juízo de valor, e respeitando sempre a enorme diversidade de que somos feites. Respeita crenças, religião, orientações sexuais, desejos pessoais, identidade de género. Não considera a menstruação uma condição feminina, ou relativa “à mulher”. Pelo contrário, para além de ser transversal a todo o livro, Lemos dedica um capítulo para falar da menstruação nas pessoas trans, por exemplo, adoptando ainda uma linguagem neutra.
Durante a leitura percebemos que a autora não desvaloriza nenhuma experiência, nenhuma narrativa, nem nenhum testemunho. Ao mesmo tempo que não oprime nem julga qualquer que seja a tua decisão: tomar a pílula ou não tomar, querer ter filhos ou não querer, usar pensos ou copo menstrual, querer menstruar ou não, quereres tocar na tua vagina ou não quereres, gostares de ver o teu sangue ou não queres ter-lhe contacto, e, muito menos, a relação com a tua sexualidade.
É um livro que te permite tomar decisões sobre ti e sobre o teu corpo de forma esclarecida e consciente, que te ajuda a monitorizar a tua saúde física e mental, e que, acima de tudo, também te ensina a ser mais tolerante em relação à forma como achamos que as coisas devem ser, quando, afinal, pode ser de tantas formas quantas as pessoas no mundo.
Sara Barros Leitão
Título: “Não é só sangue - uma conversa sobre o ciclo menstrual”
Autora: Patrícia Lemos
Editora: Influência